Falhas de Implantação
Novembro 19, 2023

A história da Helena

 


O meu testemunho sobre o caminho pela busca da fertilidade.

Chamo-me Helena, desde cedo percebi que a minha realização pessoal passava pela maternidade. Não de apenas um filho. Idealmente por três, mas caso não pudesse ser pelo custo de vida, dois era o meu ideal.Como sempre tive um receio inexplicado, que de vez em quando me assolava o pensamento, sobre se não conseguiria engravidar, quando chegou o momento em que já tinha a vida orientada para poder receber um filho, fui fazer um check-up para saber se estava tudo bem, e comecei logo a tomar ácido fólico por indicação médica. Estava tudo bem, afinal de contas, o
meu receio era infundado e estava tudo ok. Em breve iria realizar o meu maior sonho – ser MÃE.

Mas a vida trocou-me as voltas, com 29 anos o positivo nunca mais chegava. Idas à ginecologista, vitaminas, exames e a conversa era sempre a mesma – “está tudo bem, isso é ansiedade e stress. Quando menos esperar vai acontecer. Não pense muito nisso.” Como se fosse possível, não pensar…até que, aos 31 anos lá se decidiu a mandar-me fazer um exame às trompas (que estavam normais) e comecei a tomar medicamentos para indução da ovulação durante vários meses. Mais uma vez vim carregada de esperança . Ia ser agora!! Mas, nada de nada.

Procurei outros médicos, o mesmo diagnóstico e a mesma conversa. Senti de alguns profissionais uma certa ironia e falta de interesse. É triste que mesmo quem trabalha nesta área não consiga perceber o impacto disto na vida das pessoas. Se calhar não escolheram bem a especialidade…espero que hoje em dia as coisas já tenham melhorado um bocado neste sentido. Mas sinceramente, só espero porque de facto não acredito nesta mudança de postura pelo que fui apanhando pelo caminho.

Desisti. Por e simplesmente perdi as forças para procurar mais e ouvir sempre o mesmo. Durante dois anos ponderei a adoção, li e reli muitas histórias, e a forma como todo o processo se desenrolava e de como era demorado. Coloquei finalmente e de vez a adoção de parte. No fundo sentia que não era aquilo que me ia realizar. Porque o que eu queria mesmo era sentir crescer vida dentro de mim. E não aceitava que não tendo nenhum de nós um problema isso não acontecesse. Foi um processo que tive que fazer e uma reflexão para chegar a esta decisão que também foi difícil de tomar.

Voltei a arranjar forças nem eu sei bem onde, e senti que tinha que meter mãos à obra novamente. Arranjei part-times para juntar dinheiro e avancei para o privado. Tudo sozinha. Sem o apoio de ninguém, nem mesmo do meu marido, que por mais que quisesse um filho achava que não tínhamos dinheiro para nos metermos nisso e acomodou-se muito depressa. E não tínhamos, mas o dinheiro não me ia parar. Se o meu corpo não tinha nenhum problema, não ia ser por falta de dinheiro que eu ia baixar os braços. Para isso tive que trabalhar mais, e foi isso que fiz.

Completamente às escuras fui para o Google perder horas em pesquisas sobre clínicas, hospitais privados com PMI (procriação medicamente assistida), hospitais públicos, técnicas, opiniões, casos de sucesso, percentagens, custos…tudo….depressa me vi num mundo cheio de siglas que passei a conhecer e a decifrar em três tempos. Assim sendo, fui para o Hospital dos Lusíadas em Lisboa, e após exames e consultas o diagnóstico foi infertilidade idiopática. Ou seja, pertencíamos ao grupo dos 10 por cento que supostamente não tem uma causa para que a gravidez não ocorra. É frustrante. Ainda mais frustrante que haver uma causa e dizer: ok é isto agora vamos tratar. Como já tinha 35 anos e as probabilidades baixam muito a partir daí, e como já tinha feito durante muito tempo indução da ovulação, o médico sugeriu uma inseminação artificial. A expectativa foi enorme. Se não havia um problema, então um tratamento mais complexo, mas dentro dos mais complexos, era o mais simples, iria conseguir resolver o assunto. Mas o negativo veio e deitou tudo por terra…

Decidi avançar também para o público. Não conseguia suportar só o privado. Então, com 35 anos fui ao médico de família para que me encaminhasse para o serviço de PMA que serve a região onde moro. E assim foi, esperei desde dezembro de 2018 até setembro de 2019 pela primeira consulta.
Entretanto passo por uma situação de doença do meu pai e não tinha tempo nem cabeça para pensar em mais nada, senão nele. Acabo por meter completamente de parte toda a minha situação e foquei-me só nele. Perco-o em março de 2019. Voltei a focar-me no meu problema, mal o perdi…afinal de contas tinha mesmo que ter algo a que agarrar para não ir bater mesmo no fundo.

Setembro 2019, com 36 anos – primeira consulta no público – Indicação para fazer fiv/icsi, mas tinha uma lista de espera de mais de dois anos…e, aos 40 não poderia mais andar no público. Explicações dadas, perguntam se quero fazer inseminação artificial (tinha direto a 3) enquanto espero…aceito. Em novembro de 2019 mais uma inseminação. Negativo. Marco novamente consulta no privado em dezembro 2019, com mais um dinheiro na mão para avançar para uma fiv, bem mais cara que a inseminação artificial, e apenas com 30 por cento de probabilidade de correr bem…

Janeiro de 2020 e eu com 37 anos-consulta, análises, medicação para estimulação ovárica, punção e, apenas 3 óvulos bons…em vez de fiv tive que avançar para icsi (mais cara que a fiv) porque poderiam não fecundar com a fiv e seria muito frustrante passar por todo o processo
de estimulação, análises dia sim dia não, viagens de madrugada e depois não ter o que transferir. O médico avançou com a icsi para não se perder esta hipótese com estes três óvulos bons. Fecundaram os três. Só pude transferir dois. Congelei o outro.
Dia 4/02/2020 dia de betahcg. Análises de manhã bem cedo e perto das 19.00 o positivo chegou, finalmente. Dia 7/02/2020 repetir betahcg e os valores teriam que quase triplicar para se confirmar uma gravidez viável. Pelas 18.00 o resultado chega, informo a PMA dos Lusíadas de imediato e ouço uma frase que me marca até hoje de uma enfermeira de palavras doces e que sabemos que são ditas do coração: – “Parabéns, está grávida. Os valores são ótimos.”

Até chegar o dia da 1 eco para saber se a gravidez ainda se mantinha e se já se conseguia ouvir o coração ainda tive muita esperança de, para além de ter conseguido engravidar, ter conseguido também ficar com gémeos. Porque eu sabia que não ia voltar a passar por tudo isto de novo para uma segunda gravidez, e como já disse anteriormente nunca quis um filho só. Mas não, a 1 eco detectou apenas um embrião. Mas sabem que mais, já me dei por muito feliz. Depois de tudo isto seguiu-se uma gravidez de sonho, sem uma única intercorrência…tive uma estrelinha que me acompanhou neste processo de certeza. Mas a ansiedade, essa não me deu descanso nem por um minuto. O medo de perder durante toda a gravidez, o que consegui com muito custo não me deixou aproveitar. Hoje sei que deveria ter pedido ajuda profissional. Não desfrutei de nada. O medo não deixou.

Setembro de 2020, o meu filho nasceu na cidade que, apesar de não ser a minha, foi a minha casa nesta aventura – Lisboa. A cidade que me traz à tona todas as dificuldades sentidas, todas as lágrimas caídas mas, ao mesmo tempo a cidade da esperança. A cidade que agora me dá uma paz e um carinho especial porque a escolhi para ser o sítio onde o meu filho, nasceria. E assim foi.

E apenas por curiosidade, dia 30/9/2020 era a minha segunda consulta no público após a inseminação feita em Novembro de 2019 ter dado negativo. Profissionais excelentes, pessoas assoberbadas em trabalho, mas com um coração do tamanho do mundo. Só que eles não podem fazer omeletes sem ovos. Infelizmente o desinvestimento na nossa saúde dá-nos tempos de espera deste género. Ok, estávamos em pandemia, também pode ter ajudado a atrasar tudo. Mas bolas, quase um ano após a 1 inseminação ter resultado num negativo, esperei 10 meses para ser contactada de novo? É muito tempo! Enquanto fui utente daquele serviço vi a dedicação de todos, desde a recepção ao pessoal médico, enfermagem e auxiliar, mas sem mais recursos humanos é impossível fazerem melhor. Seja como for, ao ligar para lá para informar que iria desistir por já estar grávida, senti do outro lado uma empatia sincera por saber que tinha conseguido atingir o meu objetivo.

Inspirei-me em muitas histórias positivas, para não desistir. Deixo a minha para que também sirva de inspiração para que não desistam. Sei que cada caso é um caso e todos nós somos diferentes. Mas eu acho que ajuda sentir que há mais gente a passar pelo mesmo. Passei por tudo sozinha por opção. Havia uma pressão enorme para ter filhos, e eu decidi que não saberiam a verdade. As pessoas têm que entender o peso das palavras, como não entendem, passam a não saber a verdade. No ano em que finalmente me tornei mãe completava 9 anos de tentativas e de muita coisa passada até chegar ao dia mais feliz da minha vida. Se foi duro, foi. Mas teve um final feliz e isso faz tudo valer a pena.

Se me meto noutra aventura, não. Mas com muita pena minha. Nunca quis um filho único, mas atualmente com 40 anos não me sinto capaz de passar pelo mesmo, porque é um processo moroso, cansativo, e muito desgastante emocionalmente. Já para não falar no plano financeiro.A ansiedade foi muita, ficaram algumas feridas., mas que vão sarando com o tempo, à medida que se vai fazendo as pazes com o nosso corpo e com o nosso destino.

Beijinhos a todos o que estão nesta luta, e somos muitos.
Helena

 


 

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